E quando já não podemos mais culpar nossos pais? Para onde vai essa responsabilidade?
Uma leitura da Psicologia Sócio-Histórica
Você escolheu sua profissão. Decidiu onde morar, com quem construir uma família ou até mesmo que não deseja ter filhos. Ainda assim, basta um comentário do seu pai ou um silêncio da sua mãe para que surjam culpa, dúvida ou a sensação de que talvez tenha feito a escolha errada.
É comum interpretar isso como falta de maturidade, dependência emocional ou baixa autoestima. A Psicologia Sócio-Histórica propõe outra pergunta: como essa experiência foi produzida ao longo da história de vida dessa pessoa?
Ninguém nasce atribuindo um valor absoluto à opinião dos pais. Nos primeiros anos de vida, os cuidadores representam muito mais do que figuras afetivas. São eles que apresentam o mundo, organizam as primeiras formas de relação e, por meio da linguagem e das práticas cotidianas, ensinam o que passa a ser considerado certo ou errado, desejável ou perigoso. É nesse processo que se constitui a subjetividade. Talvez a experiência de sentir-se constantemente julgado e o impacto que isso produz na própria vida não sejam apenas "coisa de família". Ou talvez nunca tenham sido.
Os pais também aprenderam a ser pais dentro de uma sociedade. E essa sociedade estabelece parâmetros sobre o que deve ser considerado sucesso, fracasso, vergonha ou orgulho.
As expectativas que transmitem aos filhos não surgem apenas de suas histórias pessoais. Elas carregam valores sobre aquilo que uma determinada sociedade entende como sucesso, fracasso, moralidade, trabalho, família e até mesmo sobre quem merece reconhecimento ou reprovação. Quando dizem "isso não é profissão", "o que os outros vão pensar?" ou "na nossa família sempre foi assim", não expressam apenas uma opinião individual. Na realidade, estão reproduzindo sentidos construídos historicamente.
Por essa razão, a influência da opinião dos pais não pode ser explicada ou reduzida apenas pela dinâmica familiar. Ela é sustentada por diversas mediações sociais. Escola, mercado de trabalho, instituições religiosas, meios de comunicação e o próprio sistema capitalista participam da construção de critérios sobre sucesso, reconhecimento e valor pessoal. Todos esses elementos participam ativamente da produção dos sentidos que atribuímos à aprovação e à rejeição.
Isso também ajuda a compreender por que duas pessoas criadas na mesma família podem viver essa experiência de maneiras completamente diferentes. Cada sujeito estabelece relações singulares com as mediações presentes em sua trajetória. As relações de amizade, a escola, os vínculos afetivos, as condições concretas de vida e as diferentes situações sociais do desenvolvimento continuam participando da construção de novos sentidos.
Na perspectiva da Psicologia Sócio-Histórica, o sofrimento não está simplesmente em desejar ser reconhecido pelos pais. O sofrimento aparece quando esse reconhecimento passa a determinar quem a pessoa acredita ser e limita sua capacidade de produzir novos sentidos para sua própria existência.
Não se trata de responsabilizar pais ou filhos isoladamente, mas de compreender como determinadas formas de relação foram historicamente construídas e continuam sendo reproduzidas nas instituições e nas práticas sociais. Essa compreensão desloca o foco da culpa para a responsabilidade.
"Mas agora você é adulto." Sim. E é justamente por isso que a responsabilidade muda de lugar.
Essa frase costuma aparecer como uma cobrança ou até como uma forma de culpabilização. Na perspectiva da Psicologia Sócio-Histórica, ela pode ganhar outro significado. Ser adulto não significa que todas as marcas da infância desapareceram, assim como também não significa que basta querer para mudar. Não é uma questão de mérito, força de vontade ou capacidade individual.
Ao mesmo tempo, compreender a origem histórica desses processos e reconhecer como diferentes situações sociais do desenvolvimento participaram da construção da própria subjetividade também significa reconhecer que novas formas de desenvolvimento continuam sendo possíveis.
Tanto a subjetividade não é fixa quanto a personalidade. Enquanto vivemos, seguimos nos constituindo nas relações que estabelecemos com as pessoas, o trabalho, a cultura, a arte, o conhecimento e a própria história.
Talvez a pergunta precise mudar. Em vez de perguntar "Como faço para não me importar com a opinião dos meus pais?", pode ser mais potente perguntar:
"Quais sentidos foram produzidos ao longo da minha história para que essa opinião tenha tanto peso e quais experiências podem contribuir para que eu construa outras formas de existir?"
É nesse deslocamento que a Psicologia Sócio-Histórica localiza a possibilidade de autonomia: não como independência absoluta das relações, mas como a capacidade de compreender criticamente as mediações que nos constituem e participar ativamente da transformação da própria história.
A psicoterapia, nessa perspectiva, não tem como objetivo ensinar alguém a "deixar de ligar" para a opinião dos outros. Seu compromisso é compreender em que momento do desenvolvimento aquele sujeito se encontra, quais necessidades ainda permanecem abertas, quais mediações limitaram seu processo de constituição e quais novas experiências podem favorecer seu desenvolvimento.
Promover autonomia não significa incentivar o isolamento ou defender que ninguém precise de ninguém. Ao contrário. Significa construir relações que favoreçam crescimento, reconhecimento, elaboração e desenvolvimento, sem que a identidade ou o valor pessoal dependam exclusivamente da aprovação de alguém.
Na Psicologia Sócio-Histórica, o desenvolvimento humano não termina na infância, nem na adolescência, nem quando nos tornamos adultos. Enquanto houver vida, haverá possibilidade de produzir novos sentidos, estabelecer novas relações e continuar escrevendo a própria história. Como nos lembra Ana Claudia Quintana Arantes, a vida continua nos convidando a atravessar novos "muros". O desenvolvimento não se encerra quando alcançamos determinada idade, mas apenas quando a própria vida chega ao fim. Enquanto estamos vivos, seguimos capazes de aprender, transformar nossa maneira de estar no mundo e atribuir novos sentidos às nossas experiências.
Sem romantizar, talvez essa seja uma das partes mais bonitas da vida: ela nunca nos entrega uma versão definitiva de quem somos. Enquanto houver vida, permanece aberta a possibilidade de compreender nossa história sob novas perspectivas, construir relações que favoreçam nosso desenvolvimento e seguir escrevendo a própria trajetória com cada vez mais autonomia.
Stela Cláudia Barboza da Silva
Psicóloga na abordagem Sócio-histórica – CRP 06/116869
Fundadora e Responsável Técnica do Instituto Emancipar – Saúde e Bem-Estar
Referências
BOCK, Ana Mercês Bahia; GONÇALVES, Maria da Graça Marchina; FURTADO, Odair (org.). Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2015.
ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.
LEONTIEV, Alexei Nikolaevich. Atividade, consciência e personalidade. Bauru: Mireveja, 2021.
MARTÍN-BARÓ, Ignacio. Psicologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 2017.
SAWAIA, Bader Burihan (org.). As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2021.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Pensamento e linguagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
Continue lendo
O que se sustenta quando se celebra uma mãe?
Uma reflexão sobre reconhecimento, cuidado e desigualdade na maternidade, discutindo quem é celebrada e quem permanece invisibilizada.
Ler o artigo
A maternidade humanizada
A maternidade humanizada não é acessível da mesma forma para todas. Uma reflexão sobre cuidado, desigualdade, raça, classe e autonomia corporal.
Ler o artigo
O que se comemora quando se comemora uma mãe?
O que se comemora no Dia das Mães? Um olhar crítico sobre maternidade, expectativas e reconhecimento, a partir de memórias e experiências concretas.
Ler o artigo